Franquia? Todo cuidado é pouco!


Confira algumas dicas para não cair em golpes


O Brasil passa por um momento econômico delicado e o desemprego é um fantasma que ronda a cama de muitos executivos das classes média e média-alta.
Quando uma demissão acontece de surpresa, uma alternativa interessante para quem recebe uma rescisão polpuda – ou para quem fez um “pé-de-meia” durante alguns anos – é abrir um negócio próprio. Se a pessoa nunca teve experiência como empreendedor, uma franquia soa como uma excelente opção.

Definição de franquia

Cuidado!!!

Essa é a hora que um sonho pode se tornar rapidamente em um pesadelo.
Porque infelizmente, o mercado está repleto de armadilhas e de estelionatários que descobriram, no modelo de franquia, uma forma de fazer dinheiro fácil.

O golpe é bem simples de aplicar: encontre alguém que está com dinheiro em caixa, venda um sonho reluzente, pegue o dinheiro e deixe o otário a ver navios.
Parece exagero, mas há franquias especializadas em aplicar esse tipo de golpe.

Vender uma franquia é relativamente fácil, porque tudo acontece no papel. Basta apresentar uma proposta sexy, uma loja encantadora, produtos de primeira qualidade, planilhas de Excel que mostrem que a pessoa rapidamente atingirá o “break-even” e prometer que estará sempre lá para apoiar a vítima, digo, o franqueado, com a sua “experiência”.

“É uma cilada, Bino!”

Bino, ao descobrir que é uma cilada

Assisti a essa novela ao acompanhar uma amiga que decidiu abrir uma cafeteria. Encantou-se com uma proposta realmente bonita, e investiu numa franquia tudo que tinha economizado na vida.
Como o sonho vendido era de uma cafeteria elegante, fizeram-na comprar equipamentos [desnecessariamente] caríssimos e obrigaram-na a contratar uma arquiteta “parceira” que entregou um projeto “copy-paste” com inúmeros erros bastantes graves de arquitetura. Minha amiga também foi induzida a contratar uma empreiteira que, além de cobrar um valor exorbitante para reformar o imóvel que ela alugou, deixou a loja inacabada e com as partes entregues literalmente “desmontando”. Ela precisou contratar outra empresa para finalizar a obra e até hoje precisa “remendar” o projeto que pagou a peso de ouro, porque dentre outros problemas, a loja alagava quando chovia!

Mas o sofrimento não acaba com a parte civil. Foi durante o “treinamento” para a equipe que ela descobriu que os franqueadores não entendiam nada do negócio que eles vendiam. Um dos sócios (a empresa eram somente 2 irmãos) não conseguia acertar o ponto de um bolo. O outro fazia previsões teóricas que nunca se concretizaram. Pudera! Eles não possuíam uma loja sequer. Nunca tinham tido uma cafeteria, dá pra acreditar?!

A esse ponto, a cilada já ficava clara. Ela não recebeu nenhum material de marketing, e descobriu, tardiamente, que a empresa não fazia investimento algum em marketing e divulgação. O único negócio da empresa era vender franquias!

Oh, céus! Como me protejo disso?!

É importante fazer um trabalho minucioso de estudo de uma franquia antes de embarcar nessa aventura.

  • Pesquise o histórico dos franqueadores
    O modelo de negócio precisa ser comprovado. JAMAIS compre uma franquia de alguém que não passou ALGUMAS VEZES pela experiência que você irá passar. Se for para desbravar todo o território, desenvolver produtos, desenvolver material e estratégias para divulgar sua loja, criar processos de trabalho (como minha amiga precisou fazer), então você não precisa pagar para ninguém. Uma franquia deve oferecer tudo isso, e você deve se sentir seguro que os franqueadores têm experiência e competência para entregar essas promessas. Lembre-se também de fazer buscas na Internet (e em redes sociais) para levantar informações sobre os indivíduos com os quais você estabelecerá uma relação que, a princípio, deverá ser duradoura. Consulte currículos online para ver se a franquia realmente possui profissionais capacitados.
  • Converse com outros franqueados
    Visite outras unidades da franquia. Normalmente, franqueados se ajudam e trocam muitas informações entre si, portanto costumam ser bastante prestativos. Converse com os proprietários e jamais aceite fazer isso na presença do franqueador. Se um franqueador sugerir isso, DESCONFIE. Se o franqueador não quer que você fale direta e livremente com seus franqueados, é porque ele tem coisas para esconder de você e não quer que eles contem.
  • Seja cliente assíduo da franquia
    ANTES de pensar em adquirir uma franquia, frequente-a. Confira como você é tratado como cliente. É esse o atendimento que você vai querer prestar a seus clientes no futuro? A experiência que você teve é a que você quer oferecer?
    Conviver alguns dias como cliente permitirá entender um pouco da dinâmica do negócio, entender o fluxo, processos, horários de pico, fazer uma projeção aproximada de faturamento, tamanho da equipe necessária, treinamento, etc.
  • Leia a COF (Circular de Oferta de Franquia)
    A lei de franquias no Brasil é bastante flexível. Na prática, o que vale é o que está escrito na COF, que é o documento que rege a relação entre franqueador e franqueado. Esse documento não está escrito na pedra. Se você não concorda com algum item, proponha uma alteração. Negocie valores para taxa de franquia, royalties, taxa de marketing. Muitas franquias oferecem carência dos royalties nos primeiros meses, nos quais seu faturamento provavelmente será menor do que os custos e seu fluxo de caixa estará mais comprometido. Desconfie, porém, se o franqueador começar a fazer muitas concessões para fechar negócio. Se a franquia está mais interessada em receber dinheiro rapidamente do que em ajudar você a ganhar no longo prazo, isso é um péssimo indicador.
  • Consulte a ABF (Associação Brasileira de Franchising)
    A ABF é uma entidade sem fins lucrativos que busca desenvolver o sistema de franquias no Brasil. Franquias consolidadas associam-se à ABF e se comprometem a seguir as diretrizes da associação, além de participar de conferências, simpósios, seminários, palestras, cursos e encontros de formação técnica sobre o Franchising.
    Você pode consultar a lista de associados da ABF neste link.

Sempre funciona?

Empreender é assumir riscos. Significa que você pode vir a ganhar bem mais do que o salário que tinha, ter liberdade para fazer coisas do seu jeito, ter mais flexibilidade de horários, etc.
Por outro lado, pode significar também que suas economias de muito tempo virem pó.
Em resumo, qualquer um que afirmar que empreendendo você terá sucesso estará sendo leviano. Empreender é um eterno “talvez”.

Por melhor que você tenha escolhido a franquia para fazer parte, é sua responsabilidade gerenciar o negócio de forma que ele seja de fato lucrativo. O apoio sério, competente e profissional de uma franquia não fará que o dinheiro comece a brotar em seu caixa sem esforço. Ainda que você esteja usufruindo de um modelo de negócio validado e estruturado, a operação de sua unidade depende de você.

Conclusão

Uma franquia pode ser uma ótima opção para você começar a empreender. É justo pagar para usufruir a experiência de alguém e não precisar cometer erros e fazer ajustes que alguém já realizou.
Por outro lado, se você está pagando por um produto ou serviço, também é justo que isto lhe seja entregue!

As dicas aqui compartilhadas visam somente alertar as pessoas para que elas não caiam em “contos de vigários” como eu vi acontecer. Felizmente, minha amiga é uma pessoa dinâmica, experiente e competente (leia-se guerreira) e conseguiu desvencilhar-se da franquia e agora está tocando seu negócio próprio. O café agora chama-se Coffee Lounge e fica na região da Vila Olímpia.

Se eu vou mencionar o nome da franquia? Claro que sim, afinal, o objetivo de contar histórias aqui no blog é que as pessoas fiquem informadas!
Chama-se Coffeetown.


Nota: Minha empresa, Desquebre, fica sediada dentro da cafeteria mencionada. Se quiser parar para tomar um café e bater um papo, é só chamar. Aliás, recomendo experimentar o brownie e o moccacino! 😉 😉

E se o Google produzisse café?!

E se o Google produzisse café?!

Google é uma empresa incrível. Aos poucos, ela se aproxima da Apple em termos de Market Capital e acredito que em breve, a fantástica fábrica de anúncios assuma o posto de maior empresa de tecnologia do mundo.

O que faz o Google ser tão diferente? Talvez uma única palavra: informação.

Google é uma empresa totalmente data-driven, uma das poucas do mundo que pode ser definida ao ler sua missão: “organizar as informações do mundo e torná-las acessíveis”*.

Isso significa que as decisões no Google são tomadas com base em dados. E a empresa é obsessiva em coletar e analisar dados. E por mais que existam as infindáveis discussões em torno do tema privacidade, isso pode ser melhor para você do que você imagina (continue lendo e entenderá).

De onde vem essa obsessão?

Com certeza, de seus fundadores. O Google é um tremendo exemplo de como deve nascer uma startup. Larry Page e Sergey Brin começaram seu negócio acreditando serem capazes de criar algo formidável, e o primeiro passo para isso foi… ESTUDAR!

Sergey tem 2 faculdades, um MBA, fez mestrado em Stanford e conheceu Larry no doutorado, também em Stanford. Ao contrário do que rezam alguns “startupeiros de ocasião” – com muito comodismo e auto-indulgência – estudar é algo fundamental para ter sucesso. Não acredite na falácia que Jobs e Gates abandonaram a faculdade (até porque antes disso, eles estudaram muito mais do que muita gente com diploma e MBA). Quem acredita que só talento, motivação e vontade são suficientes para o sucesso pode voltar para seus livros de auto-ajuda, porque sucesso de verdade demanda muito estudo, muita dedicação e muito SUOR. Esse, aliás, é outro ponto importante. Larry e Sergey arregaçaram as mangas e começaram a trabalhar, ELES MESMOS! Nada de “eu tenho uma ideia”, nada de “vamos procurar um investidor”, nada de “a gente contrata um dev”. Fundador que é fundador vai lá e faz!

E o que isso tem a ver com café?

Absolutamente nada. Foi um devaneio meu enquanto moía café. Sim, eu compro café em grãos e moo. É divertido controlar o tempo de moagem e ver o resultado. Se moer pouco, o pó fica grosso e o café sai muito rápido. Fica bem mais fraco e não forma aquela espuminha charmosa do espresso. Se moer demais, o pó fica fino e dá dó de ver a máquina “fazer força” para gotejar o café, que também perde a espuma e fica com um gosto meio “queimado”. O tempo ideal costuma ser entre 30 e 40 segundos (no meu moedorzinho velho) e varia com a marca do café. Para cada marca, tenho que fazer uns “testes” para ver se aumento ou diminuo um pouco o tempo. Como disse, é divertido.

Voltando ao link com o Google, enquanto fazia isso (esperei 37 segundos), fiquei pensando como as empresas tomam esse tipo de decisão. Quanto tempo elas moem seus cafés?

Foi quando me perguntei: como seria se o Google produzisse café?

Produzindo café

Imagino que uma empresa normal controle algumas variáveis do processo de produção de café: tempo de secagem, torra, moagem, etc. Provavelmente, estas empresas fazem uma dezena de testes com parâmetros diferentes para cada processo e optam pelo melhor resultado.

E o Google?

Talvez Sergey e Larry não se satisfaçam com somente 10 variações em meia dúzia de parâmetros. No processo de pesquisa do “Google Coffee”, tudo seria monitorado – da germinação da semente ao escorrer do café para a xícara. Seriam instalados sensores na plantação, nas máquinas de colheita, nas máquinas de secagem e moagem…

O Google também utilizaria técnicas empíricas para começar a pesquisa e desenvolvimento do “Google Coffee”, mas somente para gerar os dados iniciais para alimentar os algoritmos que analisariam as variações de cada uma das milhares variáveis analisadas. Esses algoritmos gerariam os melhores parâmetros, que seriam re-introduzidos no ambiente físico de pesquisa, dando origem a diversas iterações de evolução do produto.

Então o Google Coffee seria facilmente copiável?

Uma vez definidos esses parâmetros, bastaria o acesso a eles por um concorrente e o produto perderia seu diferencial, certo?

Erradíssimo!!!

Outro valor fortíssimo no Google é a diversidade. A empresa respeita DEMAIS as diferenças entre os indivíduos, tanto que pessoas que não tenham essa característica dificilmente se mantém por muito tempo na empresa. Juntando essas obsessões (dados + diferenças), a próxima etapa seria a de CUSTOMIZAÇÃO do Google Coffee a você.

Sim, com todo co controle da produção, e conhecendo o seu gosto com a mesma precisão aplicada às técnicas de produção, o Google seria capaz de produzir um café exclusivo para você. Um café que você (e somente você) consideraria O MELHOR DO MUNDO. E bastaria você dizer: “OK, Google! Está acabando o café!” e este café “com a sua cara” seria entregue em sua casa. Pode ser até que você nem precise avisar o Google…

E você nunca imaginou que um “cookie” poderia te proporcionar o melhor café do mundo, imaginou? 🙂 🙂

* Durante uma palestra há algum tempo, com o intuito de mostrar que as declarações de missão das empresas são meros clichês corporativos, apresentei a “missão” de uma grande corporação como sendo a missão de um prostíbulo. Todos os participantes concordaram que o texto estava adequado ao negócio.