Errar x Fazer a Coisa Errada


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Gosto muito de metáforas e associações de fatos e conceitos entre cenários de naturezas distintas.

Ontem, assistindo à Formula 1 na companhia virtual de alguns “amigos de Twitter”, ocorreu-me uma dessas associações, que começou com a pergunta:

“Errar” e “Fazer a Coisa Errada”… será que é a mesma coisa?

Contexto da reflexão (Fórmula 1)

Para quem não viu: Vettel, ao tentar ultrapassar Button, perdeu o controle do carro e acertou a lateral do britânico, eliminando-o da corrida.

Erro de Vettel elimina Button do GP da Bélgica
Erro de Vettel elimina Button do GP da Bélgica

A FIA, ainda com o respeito abalado por conta da lambança no GP da Alemanha, tratou de punir Vettel com um drive-through (passagem pelo box).

Vettel errou? Sem dúvida!
Mas será que ele fez a coisa errada?

O automobilismo envolve riscos. Cada ultrapassagem exige audácia e isso faz parte do jogo. Não é à toa que exige-se uma superlicença para participar e paga-se salários exorbitantes aos pilotos.

Vettel errou tentando fazer a coisa certa: obter a máxima performance de seu carro. Sua falha pode ter sido causada por ansiedade, por uma ondulação na pista, por imperícia ou imprudência. No entanto não houve dolo.
Em outras palavras, Vettel não teve intenção de prejudicar a corrida de Button. O que não exime sua culpa.

Se voltarmos ao caso em que Alonso combinou com a equipe para que Nelsinho se esborrachasse no muro para interromper a corrida e beneficiar o espanhol, a situação é totalmente oposta: Alonso não cometeu nenhum erro, mas fez a coisa errada. Houve a intenção de se beneficiar de uma manobra perigosa e desleal.
Só para constar: a FIA, neste caso, não puniu o beneficiado.

Então erros sem intenção não devem ser punidos?

É claro que quando alguém erra e prejudica outra pessoa, o erro deve ser reparado. A motivação de uma atitude em relação ao culpado, no entanto, não deveria ser de punição, mas sim de reparação do erro. Afinal, não é justo que a “vítima” seja prejudicada.

Já quando existe dolo, o termo “punição” se encaixa um pouco melhor. Neste caso, além de reparar o dano, o culpado passa por um processo considerado “corretivo”, ou seja, cumpre uma penalidade que o faz reavaliar seus atos e, supostamente, evitá-los no futuro.

Calma… a ideia aqui não é entrar no mérito da análise dos sistemas judiciais. Então vou direto à minha metáfora.

Ninguém é criativo se tem medo do erro

Hoje é comum as empresas “exigirem” criatividade dos funcionários e falarem em inovação. Por outro lado, erros não são bem-vindos e dificilmente são tolerados.

Agora pense na palavra “inovação”. Implica em tentar algo novo, e portanto sujeito a erros.

Resultado: se a empresa “pune exemplarmente os erros”, mesmo aqueles sem dolo, a mensagem que ela está passando é: “não tente nada que possa causar um erro”, e com isso a empresa inibe totalmente a criatividade e a inovação.

Ninguém é criativo num ambiente onde se faz a coisa errada

Empresas que olham somente para relatórios e métricas podem estar negligenciando a análise de como estes resultados estão sendo obtidos.

Os colaboradores, no entanto, não são tolos. Eles sabem quando as pessoas estão fazendo a coisa errada, mesmo quando os relatórios mostram números positivos. Em cenários assim, duas possíveis reações são:

  1. Passar a fazer a coisa errada para manter a “competitividade” para obter os mesmos resultados;
  2. Perder a confiança no sistema e desistir de fazer a coisa certa, por não mais acreditar que o reconhecimento ocorrerá de forma justa.
    Resultado: se a empresa é conivente com o ato de “fazer a coisa errada” em prol de resultados, seja por desinformação ou por tolerância a desvios, ela desestimula o colaborador que quer fazer a coisa certa e perde a oportunidade de receber ideias para seu crescimento, ou seja, ela inibe totalmente a criatividade a inovação.

Conclusão

A inovação envolve riscos. Cada nova ideia exige audácia e isso faz parte do jogo. Não é à toa que exige-se uma boa capacitação para participar e paga-se bons salários aos colaboradores inovadores.

Se você quer um ambiente inovador de verdade em sua empresa, minhas sugestões são:

  • Passe a tolerar erros quando realizados na tentativa de fazer a coisa certa, porém tomando medidas para evitar que alguém seja prejudicado por estes erros;
  • Não tolere, de forma alguma, que as pessoas façam a coisa errada – mesmo quando os resultados destas ações sejam tentadores. No longo prazo, a coisa errada não se sustenta.

Gostaria de ouvir sua opinião. Deixe seu comentário!

Luciano Palma

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15 comentários sobre “Errar x Fazer a Coisa Errada

  1. Quando comecei a ler este post achei que estava em um blog jurídico.
    Hehe…

    Costumo dizer que existe a GRANDE diferença de “FAZER” e “FAZER BEM FEITO”.
    Este é um problema terrível na área de TI das empresas que levam ao “ERRAR” e “FAZER A COISA ERRADA”.

    Papo longo. Post inovador (hehe)!
    Abraço!

    1. O papo é longo sim, Kono!!! E a ideia é justamente refletir e discutir!

      Ah… e vc acertou na mosca ao citar o “viés jurídico”… ao escrever lembrei muito das aulas de direito que tive na Engenharia… o Prof. Laruccia deve ficar contente: 20 anos depois estou usando o que ele ensinou em suas aulas!
      Ainda lembro a 1a. questão da prova: “Qual a importância do estudo do direito para o Engenheiro?”.
      Taí, Professor! Eis o resultado de seu trabalho! Obrigado pelos ensinamentos! 😉

  2. Grande mestre Palma,

    Conheci um gerente de TI que tinha medo de inovar por medo de errar, medo de algo sair do seu controle. Sendo assim, nao inovava, não melhorava, mas tbm nao prejudicava a sua produtividade. A empresa não tinha grandes problemas, tudo sempre atendia a ‘rotina’ de todos os dias.
    Mas aconteceu algo a ele? Foi demitido.

    Dai vem o questionamento? Ele errou ou fazia algo errado?
    Eis a questão.

    Bacana seu texto. É uma boa reflexão também.
    Abraços.

    1. Oi Sara!

      Talvez este [ex] gerente não tenha nem errado nem feito a coisa errada.

      Ele simplesmente anulou o seu potencial pelo medo do novo. Não inovando, acabou se restringindo a fazer “mais do mesmo” enquanto o mundo evoluía. Ele simplesmente ficou para trás, provavelmente pela falta de visão das mudanças ao seu redor ou pelo excesso de confiança no “Status Quo”.

      Voltando à metáfora da Fórmula 1, seria aquele piloto que com medo de derrapar nas curvas, anda bem devagarinho e acaba sendo ultrapassado por todos…

      Pessoas como ele são abundantes nas empresas. E quanto maior a empresa, maior o tempo de sobrevida dessas pessoas, pois a inércia do conjunto é maior.
      O que acaba acontecendo, cedo ou tarde, é algo parecido com o que houve com o gerente citado. A evolução atropela os que se agarram ao Status Quo.
      Lembra que sempre foi assim no processo de seleção natural?

      Com o potencial e garra que vc tem, e ficando antenada nos movimentos do mundo, vc pode ficar tranquila, não é mesmo? 😉

  3. Isso é algo que tenho aprendido, já me meti em várias situações onde o resultado não foi bom, mas no final quando tudo se acertou as ‘falhas’ foram apenas um detalhe no processo.

    Belo post.

  4. Fez lembrar o filme “A Família do Futuro”, onde o pessoal que presencia um erro do protagonista, comemora ao invés de criticá-lo. Bom, fico com o lema do filme para aqueles que enfrentam as empresas sem visão comentadas no texto:

    “Keep moving forward” (Siga em frente)

    Abraços

  5. Toda vez que leio as matérias do Palma sinto que estou fazendo a coisa errada.
    Calma eu explico; normalmente em casa depois do trabalhado, sempre tenho a sensação de que deveria ter feito mais, produzido mais e aproveitado melhor meu tempo; Então para compensar logo que chego em casa vou direto para a frente do computador terminar aquele serviço ou revisar aquele assunto que a dias estou por terminar, faço isso por medo de não corresponder as expectativas dos clientes ou do pessoal da empresa e também por querer como qualquer um quer FAZER MAIS COM MENOS, acredito eu que se passo a maior parte do meu tempo envolvido com o trabalho irarei menos e serei mais bem visto, entretanto acabo ficando exausto e demorando em muitas vezes mais tempo em concluir tarefas pois estou sempre sobrecarregado.
    (Parece até que sai do contexto do POST), mas o que quero dizer é que muitas vezes deixamos até de viver para não decepcionar o grupo, o cliente, o chefe; pois decepcionar a eles poderia nos trazer má reputação que pode até nos custar um emprego; Todos esperam que os outros devam sempre acertar, cumprir os prazos, surpreender e mostrar sempre que são merecedores dos cargos que ocupam ou salários que recebem, nem que isso os custe sua sanidade e/ou qualidade de vida; e nós acabamos por fim “caindo na dança” e achando que fazemos a “coisa errada” até nas coisas mais simples que mais nos dão prazer, (Como ler um post e comentá-lo depois) simplesmente porque temos medo das conseqüências que o julgamento de um erro podem nos trazer.
    Ficarei grato com comentários.

    1. Olá Rodrigo,

      Recomendo assistir o vídeo do Simon Sinek sobre “Começar pelo porquê”. Se você já assistiu, vale uma reprise para parar e refletir… http://www.youtube.com/watch?v=u4ZoJKF_VuA

      Quem tiver problemas com o inglês, tem uma “versão tupiniquim” (bem menos abrangente) que fiz: http://www.youtube.com/watch?v=6qJdzWeDPGE

      A grande verdade é que vivemos tomados pelo operacional e acabamos deixando de pensar POR QUE fazemos as coisas que fazemos.

      Outro dia comentei em uma aula que as pessoas vão para o trabalho para fazer aquilo que não acabaram de fazer ontem. E amanhã irão para fazer aquilo que não acabaram de fazer hoje. E assim sucessivamente. Sem questionar, e cada dia menos entendendo POR QUE estão fazendo aquilo.

      Quando menos esperam, percebem que o tempo passou, sua pele enrugou, seu corpo adoeceu e sua energia… acabou!

      Faça-se a pergunta: POR QUE?
      Dinheiro? Poder? Status? Aceitação DOS OUTROS?
      Pare e reflita… a vida é SUA! Você deve vivê-la conforme seus valores e conforme os seus anseios. Não os dos outros!

      Claro que tudo isso tem que ser feito com responsabilidade.
      No entanto, nada justifica a anulação do indivíduo. Muito menos quando isso acontece em massa.

      Se cada um parar, refletir e descobrir o seu porquê, tenho certeza que todo o conjunto terá mais sucesso (sucesso de verdade, não sucesso enlatado, sob a forma de cargos, roupas caras ou outras muletas psicológicas), e que cada um viverá muito mais feliz.

      Zen demais? 😉

  6. Grande Palma,
    Muito bom o post. Parabéns!

    Ele me lembra um texto que li, sobre RH, há um tempão. No contexto havia algo próximo de “quando há a possibilidade do erro, o acerto vem de uma maneira mais fácil e ao mesmo tempo mais sólida”.

    Existem pessoas com potencial, porém, ficam no anonimato, retraídas, com medo de errar (Vide o caso do gerente de TI, mencionado pela Sara), que, querendo ou não, acabam errando. (Agora discordei de você).

    Ainda com o seu título, inferindo, acredito que ter medo de errar é sinônimo de fazer a coisa errada.

    Abraços,

    1. Pela “definição” que utilizei no post, onde “errar” está associado à intenção de acertar (mesmo que sem sucesso), e “fazer a coisa errada” está associado a acertar sem comprometimento com valores ou até mesmo com a ética, eu diria que:

      ter medo de errar é aceitar a coisa errada

      como isso acaba sendo um erro… acho que concordamos de novo! 😉 😉

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