A Unidade Real de Empenho


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Posso estar entregando minha idade aqui, mas eu vivi o tempo de inflação na ordem de 50% AO MÊS.
Forem tempos caóticos, pois as pessoas saíam gastando seus salários assim que recebiam, para evitar a erosão de seu poder de compra.
Lembro das filas nos postos quando o aumento do preço da gasolina (tabelado) era anunciado.
A remarcação de preços era constante, e o preço dos produtos dava saltos hoje impensáveis.

A Unidade Real de Valor

Com a escalada dos preços, as pessoas não conseguiam ter uma referência do valor das coisas.
Um tênis podia custar mais do que uma TV no dia em que seu preço era remarcado.
Para eliminar estas discrepâncias, foi criada a Unidade Real de Valor, que permitia ter uma ideia do valor relativo das coisas.

Obs: Repare, na tabela do link acima, que algo que valia CR$ 647,50 em 1° de março de 94, passou a valer CR$ 2.750,00 em 30 de junho (424,7% de inflação em 4 meses).

A Falsa Estabilidade

Hoje os preços não variam tanto. Alguns produtos podem ficar até um ano sem reajuste. A inflação anual é menor do que a semanal daqueles tempos.
O caos, porém, é o mesmo. Só está mais escondido.
Continuamos sem uma referência realista de valores.

Os Números que escondem a Realidade

Outro dia uma amiga disse que fez um bom negócio ao comprar um apartamento de 133 m², num bairro de classe média, por quase 700 mil reais.
Mesmo com o “novo” salário mínimo e conseguindo um financiamento com taxa de menos de 1% AO ANO, um brasileiro teria que trabalhar quase 400 ANOS para pagar este apartamento! Sem comer nada, sem vestir nada, sem se deslocar.
Se o infeliz resolvesse comer uma vez ao dia, a 2 reais por refeição, a conta já superaria os 500 ANOS!
Seriam cerca de 7 VIDAS por um apartamento!!!
Algo está muito errado. Uma vida humana não pode valer o preço de um carro de luxo.

Para mostrar que não estou manipulando os números: o custo de um minuto num celular pré-pago no Brasil é de cerca de R$ 1,40.
Uma faxineira, em São Paulo, pode ganhar em torno de R$ 800,00 (e esse valor é acima da média). O minuto de seu trabalho, portanto, custa R$ 0,075 (7,5 centavos).
Isso significa que para falar UM minuto no celular, esta pessoa tem que trabalhar 19 minutos! Esta pessoa precisa trabalhar UMA HORA para falar 3 MINUTOS ao celular!!!
Algo está muito errado. Uma pessoa não pode valer 20 vezes menos do que uma torre de transmissão de rádio!!!

O Pulo do Gato

Estamos vivendo uma realidade distorcida.
Os preços que pagamos pelos produtos e serviços estão totalmente inchados em relação ao empenho que temos que fazer para obter o dinheiro para pagá-los.
O sistema de preços está artificialmente estabelecido porque os preços devem embutir:

  • A corrupção
  • A má gestão
  • Os “falsos gerentes”, que recebem salários altíssimos sem nada produzir
  • A ganância de quem está no poder

Se um dia o Brasil acordar; se um dia o brasileiro sair da sua “zona de conformismo” e seguir o exemplo que os Egípcios e Tunisianos nos deram recentemente, talvez o sistema se ajuste.
E talvez o brasileiro comum possa morar, não num apartamento de 133 m², mas num lugar que não alague nem desabe quando chover.
Talvez uma faxineira possa ligar para sua patroa dizendo que seu ônibus atrasou meia hora sem ter que trabalhar uma hora a mais por esse telefonema.
Talvez um dia o Brasil seja um país mais justo com as classes C e D que os marqueteiros tanto festejam.
Mas isso não vai acontecer se você que está lendo esse post pensar: “o Luciano ficou louco“, fechar esta janela e continuar a vida como ela é, enganando-se para evitar se sentir conformista.
Comece deixando um comentário com sugestões do que nós, que temos acesso à Internet e ao celular, podemos fazer para mudar isso.
Como brasileiro, eu agradeço. E conte com meu empenho.

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17 comentários sobre “A Unidade Real de Empenho

  1. Apesar de saber que há lugares no mundo mais escravagistas que o Brasil, atualmente – note-se China e Índia, também “emergentes” – concordo com você sobre a distorção de valores na qual o sistema tenta nos afogar (ou anestesiar). Consegue, mesmo, nos alienar.

    A velocidade que todos ambiocionavam, na informação, na Vida, nas relações, funciona contra nós mesmos, pois nossa mente não está preparada a dar juízo de valor ao que nos alcança, em tão pouco tempo.

    Agora, percebo a gravidade do que Einstein descobrira décadas atrás: tudo depende do referencial do observador e o espaço-tempo é curvo!!

    Abçs e sucesso!

    1. Será estamos mais ou menos escravizados do que na Índia e na China?

      Em relação à tarifa de celulares:
      “Em países como a Índia e a China, os valores cobrados são de R$ 0,02 e R$ 0,05, respectivamente” – http://www.nominuto.com/noticias/brasil/minuto-do-celular-no-brasil-e-o-segundo-mais-caro-do-mundo/48042/

      Índia e China estão fazendo a lição de casa. Nos rankings de educação, eles nos deixam “no chinelo”.
      Em breve teremos uma divisão no BRIC; será BR e IC, com IC evoluindo e a BR sofrendo um grande apagão: de talentos, de moral, de cidadania.

      Se não rompermos com essa “prosperidade de faz-de-conta”, o oba-oba e a malandragem vai nos levar para o abismo.
      Vamos acordar enquanto é tempo e enquanto o Brasil [ainda] é um país rico!

  2. Também acho isso revoltante, e não entendo como não saímos ainda para as ruas e protestar esse abuso de poder que hoje existe!

    Odeio ter que pagar (ou geralmente não ter para pagar) mais que o dobro por algo que não vale isso!

    Estamos aí Palma.

    Abração..

    1. O problema é que somos um povo acomodado, essa é a verdade difícil de assumir e de dizer publicamente (aliás, verdade altamente impopular – imagino que receberei críticas por ter escrito isso…).
      Conheço muita gente que reclama do governo, mas que na hora de levar vantagem, logo justifica alegando que “todo mundo faz”.
      Em breve começa o período de preenchimento da declaração do imposto de renda. Gostaria que isso fosse feito com o mesmo puritanismo com o qual se critica os políticos.
      A impressão que tenho é que muita gente acha que a ética tem que ser praticada pelos outros, assim como as manifestações sociais.
      Por que não usamos a rede para discutir o que achamos que está efetivamente errado, construir uma proposta para mudanças e organizar manifestações significativas?
      Assim como esta discussão, deve haver muitas outras “sementes” circulando pela rede. Seria ótimo encontrarmos um jeito de canalizar todo esse inconformismo de forma inteligente e civilizada, para que mostremos que nós também somos capazes de construir algo melhor.
      Estou sendo sonhador demais?

  3. Que tal comecarmos a tentando tirar o Sarney de lá. Essa realidade que você comentou sinto bem na pele.
    Pago uma prestação a caixa economica de R$720,oo ao mes todo dia 5 no final do ano veio o relatório dizendo que a amortização do meu financiamento foi de apenas R$2.300,00 o restante que paguei das parcelas foram juros para o banco. Claro que infelizmente se não fosse dessa forma e não teria condiçoes de guardar o dinheiro porque eu teria que pagar um aluguel. Sendo assim teoricamente pago o que é meu, que só será meu daqui a 20 anos. E espero e me esforço para que meus filhos tenham uma vida melhor que a minha e sejam melhores do que eu estou sendo. Um abraço.

    1. Pois é, Marchetti. Além de trabalhar e pagar suas contas, você ainda tem que sustentar uma instituição financeira que cobra juros absurdos, muito além do que é praticado em outros lugares do mundo.
      Dos seus R$ 8.640,00, R$ 6.340,00 vão para o banco. Isso é 73,3%. Ou seja, só porque o banco tem “poder econômico”, você tem que pagar 3 apartamentos para ele. Isso é justo? E depois ainda vêm falar que o governo cobra muito imposto!

      1. É evidente que não. mas eu particularmente não sei como agir. Talvez o povo seja acomodado porque não tem informação, não conhece seus direitos ou tem medo de levar umas balas de borracha na cabeça. Ou fica dividido entre faltar no emprego para uma manifestação e ainda ter o dia descontado.
        Acredito também que a imprensa (especialmente TV) tem sua parcela de culpa maquiando muito coisa que acontece de verdade nesse pais. A TV se fosse melhor utilizada talvez seria o melhor meio de comunicação para informar os brasileiros, mas analise, temos apenas 30 minutos de jornal por dia (na emissora que tem mais audiência nesse pais) o resto da programação é preenchido com cultura inútil que não agrega nada a o cidadão. Brasileiro (uma grande parcela) tem preguiça de ler. Não tem dinheiro para comprar jornal impresso. etc etc.
        E o que adianta ter inclusão digital apenas para orkut ou msn.
        Esses são muitos obstáculos a ser vencidos para que alguém acorde a população para se fazer algo.
        Acho que você entende o que quero dizer.
        Um abraço.

  4. Vale a pena repassar e mais ainda uma forte reflexão a respeito. A Luta deve ser diária, o empenho constante, a força com a qual devemos reagir a injustiças, corrupção e tudo mais que faz a banda podre de nossa sociedade, deve ser a mesma com a qual lutamos quando somos prejudicados financeiramente de alguma maneira. Vejam, é muito, muito, muito maior o prejuizo que estamos acumulando por décadas de marasmo, de força de vontade, de falta de seriedade e visão patriota. Não estou com isso, chamando por uma revolução armada, mas uma revolução comportamental, uma revolução de valores, uma revolução ética, que possamos crescer enquanto pessoas, profissionais, sociedade e transformar esse Brasil num pais digno para todo brasileiro e não apenas para as classes mais abastadas.

  5. Muito bom o post, Luciano! Mostra como as pessoas se enganam ao acreditar piamente em afirmações difundidas ano após ano sobre a tal estabilidade dos preços. Parabéns por mais este artigo esclarecedor.
    Abraços,
    Vanessa Teodoro

  6. Sinceramente, se você acha que 700Mil é um preço justo e financia um apartamento desses, você é parte do problema

    Celular é mais complicado, mas quem sabe se não tivesse 40% de imposto apenas sobre a tarifa, mais a multidão de impostos sobre equipamentos importados, fosse mais barato.

    A “atual prosperidade” tem um tanto de verdade, e outro tanto de pegadinha

    1. Thiago,

      Ouço muito esta lamentação de impostos altos no Brasil. Já morei em outros 2 países e a carga tributária era praticamente a mesma. O mais engraçado é que ouvia o mesmo discurso lá. Parece que todos os países pagam os maiores impostos do mundo. Algo como “a grama do vizinho é sempre mais verde”.

      Vamos nos ater aos números: Se na China e na Índia as operadoras cobram R$ 0,02 e R$ 0,05 e dão lucro, vamos imaginar a situação ótima:
      – O imposto é ZERO
      – O custo de toda operação é ZERO

      O lucro das operadoras, por minuto, nestes países, seria de R$ 0,02 e R$ 0,05.

      Agora vamos imaginar um custo de 50% e um imposto ainda mais abusivo: 100%, considerando a tarifa mais alta.
      Se as operadoras se satisfizessem com o mesmo lucro no Brasil, o custo do minuto seria no máximo R$ 0,20 (R$ 0,05 de custo, R$ 0,05 de lucro e R$ 0,10 de imposto). E isso na condição de absurdo!

      Concorda que o problema não é o imposto, mas a ganância e o lucro abusivo, olhando o curto, curtíssimo prazo?

      Conclusão: Reclamar de imposto é vago*. O mundo todo paga! Temos que encarar o real problema, que está relacionado com discrepância social proveniente da ganância.

      * O que concordo é que temos que cobrar a contrapartida do imposto. Europeus pagam tanto imposto quanto nós mas têm ensino público de qualidade, sistema de saúde efetivo, boa infraestrutura, etc.
      Só que se formos a fundo na questão, encontraremos o mesmo problema: ganância e lucros abusivos em atividades pagas com nossos impostos…

      1. Puxa vida, mas eu também morei lá fora e eu sei que o imposto não é tão alto assim! Nem na França, onde morei por um ano.

        Não estou tanto falando do imposto no preço final das operadoras, em torno de 40% (que como você bem mostrou, nas contas, não é o principal problema passaria de R$1,40 pra R$1,00 ainda muito caro)

        Agora, quanto é o imposto sobre equipamentos de rede (dica, é carissimo)?! Quanto é o “imposto” pra passar pelas diversas burocracias?

        “O mundo todo paga” não é bem assim. Só como exemplo, temos o iPad mais caro do mundo, temos uma das cargas trabalhistas mais caras do mundo, e isso se reflete em construção de infraestrutura, em manutenção de redes, etc, etc Montar uma infraestrutura é entre 2 a 3 vezes mais caro, no mínimo aqui do que em qualquer lugar ‘normal’ do mundo

        O que não quer dizer que as operadoras de celular não tenham uma excelente margem de lucro aí.

        Mas como na India consegue ser tão barato!? Bom, é a India e China, não é o Brasil. Salário de R$100,00 na India o cara é milhonário

        “Tem que cobrar que o imposto seja bem utilizado” Concordo, mas com o corporativismo do funcionalismo público, difícil isso acontecer. Ainda mais com o sonho de 9 entre 10 brasileiros de passar em um concurso público.

      2. Thiago,
        Essa questão do imposto mais alto do mundo só se resolve de um jeito: alguém tem que se propor a levantar os números precisos de quanto é cada imposto em cada país. Sem isso, estaremos discutindo sobre dados parciais e exceções.
        Com base em que vc afirma que “montar uma infraestrutura” é 2 ou 3x mais caro aqui? E o que significa “carga trabalhista mais cara do mundo”? Se fosse assim, não teríamos terceirização de mão de obra do primeiro mundo para cá. Lembre-se que na “carga trabalhista”, um dos componentes é o salário, e esse não é, definitivamente, um dos mais altos do mundo (apesar do salário mínimo ter subido, nos últimos 8 anos, de cerca de 70 dólares para ~320 dólares).
        Acho estranho tanta gente fazer coro ao discurso patronal sobre os direitos trabalhistas no Brasil. Considerando que temos mais trabalhadores do que patrões, a maioria deveria apoiá-los. Talvez tome umas pedradas agora, mas se você analisar a nossa lei trabalhista, ela é boa.
        O grande problema é a ganância de alguns empresários (e políticos) que dominam alguns (muitos?) monopólios e oligopólios no Brasil.
        Não é nada difícil um produto ser comercializado no Brasil com 100% de markup. A difrerença está aí, e não em quanto o trabalhador custa.
        Sobre Índia e China: não podemos ver as pingas que eles tomam sem notar também os seus tombos. Eles estão se preparando muito mais do que nós. Eles estão EDUCANDO. Enquanto nós estamos pulando Carnaval e discutindo BBB. ISSO vai fazer diferença daqui a 50 anos.

  7. Tenho que concordar com voce Palma. Como muitos dizem, o problema do Brasil é o Brasileiro (não todos, mas uma grande parte).
    Acho que essa situação tem solução, porém, uma de longo prazo. Se os líderes resolvessem investir na educação do povo, desde a alfabetização até a faculdade, as coisas com certeza mudariam.

  8. Olá Luciano.
    Concordo com o que foi dito e acredito que uma das maneiras para mudar esta realidade é utilizar as midias sociais de modo mais eficiente. Entretanto acredito que apenas as midias sociais não podem ser a única resposta aos problemas. Como podemos ver com os manifestos da #gentediferenciada e as marchas contra o aumento da tarifa de onibus, elas possuem uma grande adesão por parte dos usuários de Facebook e Twitter, entretanto apenas eles não podem fazer grande diferença, é necessário que a população como um todo junte-se ou melhor perceba que eles são os principais atingidos por estas manipulações. Mas a dúvida é: como fazer com que os manifestos criados por pessoas que utilizam estas redes e que na sua maior parte são de classe média ou média alta consigam pessoas que ainda são altamente influenciáveis pela televisão, jornal e revistas que insistem em mostrar apenas meias verdades.

    1. Olá Robson,
      Felizmente, a Internet e a informação livre, de forma geral, está chegando a parcelas cada vez maiores da população (incluindo as classes mais pobres). Essa é uma tendência importante, porque as pessoas fazem com os seus corpos o que pensam em suas cabeças.
      Acho que as redes sociais e a Internet têm um papel fundamental em realizar a troca de conhecimento para que as pessoas pensem, cada vez mais, com base em informação transparente – ao contrário da informação controlada, que é base para uma ditadura.
      Além de acesso à informação, mais 2 fatores são necessários para que as mudanças ocorram:
      1. Aceitação Cultural – se um povo acredita em valores distorcidos, não irá se mobilizar contra eles. É o caso da corrupção e do jeitinho no Brasil. É triste imaginar quanta gente pensa em deixar como está, porque se um dia for a vez dele, ele poderá tirar proveito.
      2. Transformação da ideia em ação. É muito fácil dar um RT ou um “Like”. Daí a levantar o corpo e ir para a rua para manifestar desaprovação, a distância é longa. Mas #gentediferenciada, #naofoiacidente/#motoristaassassino, tarifa do ônibus em SP são fatos que demonstram que tem muita gente disposta a fazê-lo. São esses heróis sem rosto que poderão melhorar este Brasil. A nossa parte é ser um deles.

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