A Margem de Incompetência


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Recentemente, o jornalista Joel Silveira Leite publicou um artigo corajoso, mostrando que o alto preço que os brasileiros pagam por automóveis não tem origem somente nos impostos.

O que torna os carros vergonhosamente caros no Brasil é o lucro abusivo que é praticado pelo oligopólio da indústria automobilística brasileira.

Leite mostra que a margem de lucro no Brasil é muito superior à de outros países, e parafraseando o termo “Custo Brasil”, cunhou o “Lucro Brasil”.

Do “Lucro Brasil” à “Margem de Incompetência”.

Já que estamos falando de novos termos, introduzo aqui uma nova métrica: a “Margem de Incompetência”.

Esse indicador reflete o quanto a ineficiência, a politização, os favorecimentos pessoais e a falta de ética tornam nossos produtos mais caros. Não estou falando de impostos, custos de transporte numa infraestrutura precária ou riscos maiores. Estou sugerindo mensurar somente o impacto da incompetência.

Afinal, aquele gerente que fica o dia inteiro fazendo política e nada agrega ao time tem um custo (e alto), e alguém tem que pagar por isso. Sinto informar que é VOCÊ.

Se a margem de lucro for pequena, não existe espaço para ineficiência, para protegidos, para nepotismo nem para “jeitinhos”. Num ambiente profissional e competitivo, para manter a estrutura saudável a empresa precisa ter lucro baseado em competência e eficiência.

Podemos verificar isso em mercados de países desenvolvidos, onde a concorrência acontece de verdade. Na Europa, nos Estados Unidos, no Japão, no Canadá, a mão de obra é bem mais cara do que no Brasil.
Sim, mesmo com todo aquele #mimimi que aqui o imposto é alto, contratar um europeu, um americano ou um japonês é muito mais caro do que um brasileiro.

Então como eles conseguem ter preços mais baixos com custos mais altos?

Há dois fatores aqui:

  • Margem de lucro menor
  • Margem de incompetência menor

Margem de lucro menor

Analise o caso dos bancos. Compare as taxas cobradas por bancos brasileiros e por bancos em países desenvolvidos. Aqui acontece praticamente um estupro financeiro dos clientes.

Agora compare o custo de um minuto do celular no Brasil e no primeiro mundo. Mesma situação. Automóveis. Seguros. Planos de Saude. TV a cabo. Preciso continuar? 😦

Margem de incompetência menor

Se a margem de lucro em países desenvolvidos é relativamente pequena, praticamente não cabe margem de incompetência. Eles TÊM que otimizar processos. Eles TÊM que trabalhar de forma eficiente. Eles TÊM que eliminar gerentóides caros e desnecessários!

Figura: Composição do Preço no Brasil, em países desenvolvidos e em países emergentes, considerando custo/despesas, margem de incompetência e margem de lucro.
 

E no Brasil?

Aqui, temos algumas estruturas onde a margem de lucro é tão grande que cabe confortavelmente uma boa Margem de Incompetência.

Isso proporciona, inclusive, segurança para quem está no poder, porque criando uma estrutura na base do favor e do “rabo preso”, a posição de comando fica mais estável. Praticamente inabalável, porque os vassalos sabem que, por serem incompetentes, não encontrarão outra “boquinha” assim tão fácil. O dono do poder, por sua vez, prefere manter uma camada de “cordeirinhos” passivos e obedientes, isolando-os da camada produtiva (que além de fazer todo trabalho, ainda têm que consertar os desmandos e a má-gestão da camada de gerentóides acima deles).

Ganham os incompetentes. Pagam o pato os competentes e os consumidores.

É claro que não podemos generalizar – temos empresas no Brasil que trabalham de forma eficiente.
Infelizmente, porém, há um contingente de empresas que ainda pode se permitir uma grande Margem de Incompetência.

O que você pensa disso? Concorda com esta visão? Conhece ambientes com alta e baixa Margem de Incompetência?
Por favor, compartilhe, discuta, comente! 😉

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6 comentários sobre “A Margem de Incompetência

  1. Sempre genial e muito lúcido nas colocações, Luciano! É triste perceber que, no fundo, somos nós mesmos que pagamos pela nossa Lei de Gerson, pois como a margem de lucros é exorbitante, a competência,não se faz necessária (e bons profissionais também não), logo, os salários pagos aos profissionais são menores do que deveriam. E isso acaba afetando até quem quer ser um profissional sério. Recentemente li uma reportagem que o Brasil tem dificuldades de criar empregos com salários dignos. Me pergunto se isso não decorre do fato de que a mão de obra fica cada vez mais barata por não precisar de competência.

    1. Infelizmente, Heloisa, você tem razão. O consumidor brasileiro é pouco exigente porque nunca conheceu um mercado de verdadeira concorrência. Um europeu jamais aceitaria o tratamento que recebemos nos “SACs” ou os serviços (e preços) das telecomunicações no Brasil. O oligopólio permite, além do lucro abusivo, entregar produtos e serviços de baixa qualidade (vide nossos carros, que “apanham” até dos chineses entry-level).
      Uma vez que não há exigência, a mão-de-obra é selecionada por preço, e não por qualidade, portanto – SIM – o bom profissional paga o pato. Assim como o “bom consumidor”.
      Para estes bons profissionais, a saída ainda continua sendo o aeroporto – vide a tabela que o Paleo publicou em seu comentário.

  2. Perfeito Luciano, apenas para complementar posto aqui um comparativo do custo da hora por país, já com encargos de um empregado da indústria automobilística em US$:
    Noruega = $ 53.89
    Alemanha = $ 46.52
    Finlândia = $ 43.77
    Suécia = $ 39.87
    USA = $ 33.53
    Inglaterra = $ 30.78
    Canadá = $ 29.60
    Singapura = $ 17.50
    Brasil = $ 8.32
    Polônia = $ 7.50
    China = $ 2.38
    Índia = +/- $ 1.19
    Fonte: Banco Mundial e LBS.

    1. Pois é, Paleo. Estes números deixam claro: o #mimimi dizendo que as leis trabalhistas no Brasil tiram nossa competitividade e que o imposto é o grande vilão é simplesmente uma técnica de desinformação para mascarar a verdade: lucros exorbitantes e margem de incompetência alta.

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