Calma. Não estou falando em “ser Uber” no sentido de inscrever-me como motorista. Estou falando em fundar uma empresa que “se transforme num Uber”.
Sei que esse é o sonho de muita gente. Um sonho fácil de entender, porque muita gente cresceu com o sonho de ganhar na loteria, e provavelmente interpretem as duas coisas de forma muito parecidas: passar a ter uma montanha de dinheiro à disposição de uma hora para a outra.

Nem vou entrar no mérito de quanto as pessoas se iludem em relação às probabilidades disso acontecer (são bem parecidas entre a loteria e “virar um Uber”) e muito menos discutir o quanto isso não acontece de uma hora para a outra (no segundo caso).

O que quero pontuar aqui é que não me interessa chegar nesse destino. Muitos dirão: “Luciano, você é louco? Você não gostaria de ser bilionário???”. A resposta é “Não”.
Não faz sentido, pra mim, ser bilionário. Eu não teria como usufruir de tanto dinheiro durante o que me resta de vida (e não é por conta da minha meia-idade: isso vale também para quem ainda está entrando na adolescência). Não há como usufruir de bilhões sem ser por motivos tão gananciosos que cheguem a ser fúteis. Para mim, isso não interessa.

Nem mesmo a máscara de “bonzinho” que alguns bilionários tentam vestir me deslumbra. Porque acumular quantias exorbitantes de dinheiro para depois decidir, monocraticamente, como “reverter isso para a sociedade”, é coisa de quem convive com problemas internos tão gigantes quanto o próprio ego. E mais uma vez, para não fugir do tema, não vou entrar no mérito do quão hipócrita são essas “caridades”…

O custo de “virar um Uber”, face aos meus valores pessoais, é muito alto. Uma empresa assim inevitavelmente terá acionistas: investidores especuladores interessados nos dividendos que a empresa distribui e na exploração das variações das ações (tanto faz se para mais ou para menos). Afinal, o compromisso dos acionistas não é com a empresa, mas com o lucro especulativo das suas transações, que são vantajosas não só quando a ação sobe (realização de lucro), mas também quando ela desce (recompra conveniente).

E quando o lucro começa a pautar a empresa, ela se torna desumana. Ela perde o sentido que lhe deu vida. Espero não ter leitores maniqueístas que interpretem isso (erroneamente) como “O Luciano é contra o lucro”. É óbvio que, como alguém que está construindo uma empresa, eu busco lucro. O que não se pode confundir é “buscar o lucro” com “o lucro ser a razão de existir”. Por mais que a grande maioria dos empresários, investidores e especuladores negue, o lucro é o que pauta as ações dessa maioria. Procure no Google por “Ford Pinto case” e você verá do que estou falando…

É triste ver empresas que crescem a ponto de perderem sua essência. Empresas que até podem ter começado pensando em seus clientes, mas que quando atingem a prosperidade, passam a buscar crescimento de forma irracional. Correm atrás de números pelos números, como pessoas viciadas em jogos ou drogas, que querem ganhar ou consumir sempre mais, mais, mais, mais…

É nesse ponto que as ações começam a divergir das palavras da empresa. Empresas que declaram a famigerada tríade “missão, visão, valores” (sic) no papel, nos treinamentos e nos vídeos corporativos, que colocam em seus lemas coisas como “foco no cliente” (“Feito para você”, anyone?), mas entre lucro e cliente, não titubeiam em ficar com o primeiro.

Mais triste ainda é ver que o topo da pirâmide a contamina completamente, a ponto das pessoas da base repetirem o discurso e operacionalizarem as técnicas da empresa de forma tão mecânica quanto robôs. A razão desse comportamento tem origem similar: por mais que os funcionários de grandes corporações declarem nas redes sociais que adoram seus trabalhos, eles só estão lá pelo salário e pelo bônus. A prova disso é o culto à sexta-feira e o desespero para que chegue um feriado.

Eu espero que minha empresa cresça. Eu espero que dê lucro. Bastante. Eu só desejo, de coração, que esse lucro proporcione uma vida confortável e saudável a mim e àqueles que estiverem comigo no barco, mas que ele não seja, jamais, a razão de existirmos.

Quero ser grande. Não quero ser Uber.

4 comentários sobre “Por que não quero ser Uber

Deixe uma resposta para Ricardo Dias Ferreira Santos Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s