Carta aberta de um brasileiro a Mark Manson

Carta aberta de um brasileiro a Mark Manson

Caro Mark,

Obrigado por tomar seu tempo para nos escrever uma carta. É verdade que fico um pouco decepcionado ao ler, no final, que você teve que pagar para alguém traduzir sua carta mesmo tendo morado 4 anos aqui (muita gente que mora menos tempo em outro país consegue escrever uma carta na língua local, mas isso não vem ao caso…).

O que gostaria de dizer é que tudo o que você escreveu em sua carta já era discutido em minha roda de amigos há mais de 30 anos. Sua carta não traz nada que não estivesse presente, já àquela época (e muito provavelmente antes disso também) nas discussões de jovens brasileiros de 14 anos. Se você achou que descobriu algo novo, trago más notícias. As obviedades de sua carta não passam de obviedades. Obviedades bastante obsoletas, aliás, apesar de ainda presentes em nosso cotidiano.

Suponho que nesses 4 anos você deve ter conhecido e gostado do clima dos botequins, porque o tom de sua carta é o que chamamos, tipicamente, de “conversa de botequim”. Se você não conhece o termo, é como designamos aquelas conversas em que as pessoas abordam temas supostamente polêmicos de forma rasa e com um ar de que sabem tudo sobre o assunto, sem porém apresentar nenhum fato, técnica, solução ou proposta produtiva. É o “falar por falar”, só para dizer que falou e sair do botequim achando que participou de uma conversa. De botequim, claro.

De qualquer forma, agradeço a iniciativa. Espero que você retorne ao Brasil e passe aqui muitos anos, para conhecer o Brasil de verdade. Um Brasil com gente desonesta sim, mas também com gente que pensa. Com bandidos sim, mas também com professores apaixonados pela sua arte, como a Fabiana Roque e a Cacau Nicolau. Um Brasil com políticos desonestos e com eleitores tão desonestos quanto eles, mas com garis que devolvem dinheiro quando encontram e funcionários de multinacionais que abrem processos internos para combater a falta de ética na empresa, mesmo sabendo que empresas cujas matrizes ficam em seu país não tomam atitude alguma, para não comprometer os resultados.

Um Brasil aonde a vida é muito fácil para quem tem muito dinheiro (fica difícil não gostar daqui quando se é rico), mas que exige que milhões de brasileiros vivam de forma muito difícil para manter as privadas dos ricos limpas e cheirosas.
Você é bem-vindo de volta, Mark. Se puder, traga na mala, por favor, a objetividade dos “gringos”. Objetividade para propor soluções ao invés de somente ficar criticando (porque essa segunda atitude já abunda em nossas terras). Objetividade para fazer alguma coisa para melhorar a vida das pessoas ao invés de ficar somente falando (vale o comentário anterior). Objetividade para dar o exemplo ao invés de apontar o dedo (e mais uma vez o comentário é válido).

Espero que o Brasil esteja muito melhor quando você escrever sua próxima carta, e de coração, espero que você sinta o orgulho de ter feito alguma coisa para que essa melhora tenha ocorrido.

Com o afeto típico dos brasileiros,
Luciano Palma, um brasileiro.

Anúncios

A Unidade Real de Empenho


[tweetmeme source=”lucianopalma” only_single=false]

Posso estar entregando minha idade aqui, mas eu vivi o tempo de inflação na ordem de 50% AO MÊS.
Forem tempos caóticos, pois as pessoas saíam gastando seus salários assim que recebiam, para evitar a erosão de seu poder de compra.
Lembro das filas nos postos quando o aumento do preço da gasolina (tabelado) era anunciado.
A remarcação de preços era constante, e o preço dos produtos dava saltos hoje impensáveis.

A Unidade Real de Valor

Com a escalada dos preços, as pessoas não conseguiam ter uma referência do valor das coisas.
Um tênis podia custar mais do que uma TV no dia em que seu preço era remarcado.
Para eliminar estas discrepâncias, foi criada a Unidade Real de Valor, que permitia ter uma ideia do valor relativo das coisas.

Obs: Repare, na tabela do link acima, que algo que valia CR$ 647,50 em 1° de março de 94, passou a valer CR$ 2.750,00 em 30 de junho (424,7% de inflação em 4 meses).

A Falsa Estabilidade

Hoje os preços não variam tanto. Alguns produtos podem ficar até um ano sem reajuste. A inflação anual é menor do que a semanal daqueles tempos.
O caos, porém, é o mesmo. Só está mais escondido.
Continuamos sem uma referência realista de valores.

Os Números que escondem a Realidade

Outro dia uma amiga disse que fez um bom negócio ao comprar um apartamento de 133 m², num bairro de classe média, por quase 700 mil reais.
Mesmo com o “novo” salário mínimo e conseguindo um financiamento com taxa de menos de 1% AO ANO, um brasileiro teria que trabalhar quase 400 ANOS para pagar este apartamento! Sem comer nada, sem vestir nada, sem se deslocar.
Se o infeliz resolvesse comer uma vez ao dia, a 2 reais por refeição, a conta já superaria os 500 ANOS!
Seriam cerca de 7 VIDAS por um apartamento!!!
Algo está muito errado. Uma vida humana não pode valer o preço de um carro de luxo.

Para mostrar que não estou manipulando os números: o custo de um minuto num celular pré-pago no Brasil é de cerca de R$ 1,40.
Uma faxineira, em São Paulo, pode ganhar em torno de R$ 800,00 (e esse valor é acima da média). O minuto de seu trabalho, portanto, custa R$ 0,075 (7,5 centavos).
Isso significa que para falar UM minuto no celular, esta pessoa tem que trabalhar 19 minutos! Esta pessoa precisa trabalhar UMA HORA para falar 3 MINUTOS ao celular!!!
Algo está muito errado. Uma pessoa não pode valer 20 vezes menos do que uma torre de transmissão de rádio!!!

O Pulo do Gato

Estamos vivendo uma realidade distorcida.
Os preços que pagamos pelos produtos e serviços estão totalmente inchados em relação ao empenho que temos que fazer para obter o dinheiro para pagá-los.
O sistema de preços está artificialmente estabelecido porque os preços devem embutir:

  • A corrupção
  • A má gestão
  • Os “falsos gerentes”, que recebem salários altíssimos sem nada produzir
  • A ganância de quem está no poder

Se um dia o Brasil acordar; se um dia o brasileiro sair da sua “zona de conformismo” e seguir o exemplo que os Egípcios e Tunisianos nos deram recentemente, talvez o sistema se ajuste.
E talvez o brasileiro comum possa morar, não num apartamento de 133 m², mas num lugar que não alague nem desabe quando chover.
Talvez uma faxineira possa ligar para sua patroa dizendo que seu ônibus atrasou meia hora sem ter que trabalhar uma hora a mais por esse telefonema.
Talvez um dia o Brasil seja um país mais justo com as classes C e D que os marqueteiros tanto festejam.
Mas isso não vai acontecer se você que está lendo esse post pensar: “o Luciano ficou louco“, fechar esta janela e continuar a vida como ela é, enganando-se para evitar se sentir conformista.
Comece deixando um comentário com sugestões do que nós, que temos acesso à Internet e ao celular, podemos fazer para mudar isso.
Como brasileiro, eu agradeço. E conte com meu empenho.

O impacto das Redes Sociais no Brasil será igual?


Muitos que lêem* este blog já sabem do meu envolvimento com Redes Sociais. De fato, venho me dedicando a este tema e tenho procurado ler bastante sobre o assunto.

O detalhe, porém, é que a maior parte da literatura vem dos Estados Unidos; o que faz sentido, considerando que a maior parte da tecnologia que envolve esse “movimento” vem de lá.

A pergunta é: será que o impacto será igual? Apesar das tecnologias e dos sites serem comuns, será que em termos sociais temos alguma semelhança com o “país de origem” de Facebook, Twitter, Linkedin, e outros?

Diferenças entre Brasil e EUA

Alguns itens que me ocorrem durante uma reflexão de fim de domingo são:

  • Acesso à Rede
    Por mais que os números divulgados no Brasil sejam cada vez mais empolgantes em termos de crescimento, qual é a “qualidade” desse acesso? Será que a nossa massa de Internautas tem um comportamento similar ao dos norte-americanos?
  • Tipo de Consumidor
    Nos EUA, devolver um produto e pedir o dinheiro de volta é praticamente instantâneo. Aqui não acontece nada enquanto você não falar com umas 8 pessoas da empresa, tiver batimentos cardíacos a 120, telefonar para um advogado e ameaçar chamar a Polícia e a Imprensa. Falo por experiência: recebi um carro (zero) com defeito da FORD. Só trocaram depois de 5 meses de MUITO stress… por outro com OUTRO defeito! Isso não é o que mais me choca. O que me choca é que falei com MUITAS pessoas sobre isso e TODOS me recomendaram “deixar quieto”, dizendo que no Brasil as montadoras não trocam carros! Claro!!! Se o consumidor é passivo, prá que assumir esse ônus? A diferença está nas montadoras… ou no consumidor??
  • Tipo de Consumidor II
    Hoje é comum sites de comércio eletrônico disponibilizarem espaços para “reviews” dos consumidores. Tanto aqui quanto nos EUA. Então fiz uma busca por “XBOX” na Amazon e no Submarino. Resultado: 60 reviews de consumidores lá, 1 (um) review aqui. E vejam com seus próprios olhos a qualidade dos reviews. Comparem também a descrição do produto que a loja coloca no site, os dados técnicos.
    Fica muito mais fácil ser um “bom comprador” se você tem informações sobre o produto. Porque nós não temos? Porque a loja não quer fornecer ou porque nós não demandamos? Pela quantidade de reviews dos consumidores, a resposta fica muito clara para mim…
  • O brasileiro é mais social
    Alguém tem dúvida disso? Então passe um Carnaval nos EUA. Ok, pode tentar algo que lá seja mais popular, como o Halloween. Ainda restam dúvidas?
    O brasileiro é um povo reconhecidamente social. Mas para socializar, não para agir em rede. E quando se fala em redes sociais – principalmente para quem tem alguma intenção comercial nisso – esse tipo de ação (ou sua ausência) é um fator crítico de sucesso. O efeito de discutir uma novela no Orkut pode ser bem diferente daquele de discutir quais KPI’s você pode usar para monitorar o sucesso da sua estratégia de marketing digital. Mesmo que ambas discussões tomem o mesmo número de “horas conectadas em rede”.
  • Produção x Consumo
    Não leva muito tempo para quem começa a interagir com redes sociais descobrir que existe uma parcela muito menor de geradores de conteúdo do que de consumidores de conteúdo. A tecnologia hoje permite (teoricamente) transformar todos os usuários da Internet em “prosumers” (produtores e consumidores de conteúdo), porém parece que não é a “oportunidade” gerada pelas redes sociais que define isso, mas algo muito mais relacionado às características individuais de cada um, que vão desde a vontade de compartilhar informações até a capacidade de expressão. Será que nesse quesito também não existem diferenças entre as populações?

Acabou?

Claro que não!!! Com certeza existem muitos outros pontos para discutir, mas queria ouvir sua opinião. Por favor, compartilhe-a conosco através de um comentário neste post. Considero o assunto interessante demais para acabar no fim do post 😉

* De acordo com as novas regras de ortografia, este “lêem” não é mais acentuado. Como tenho até 2012 para me acostumar, peço licença para curtir essa grafia mais um pouquinho, tudo bem? 🙂